quarta-feira, 29 de abril de 2009

Botulismo em bovinos no Brasil

Iveraldo S. Dutra

Foram descritos e analisados os aspectos epidemiológicos, clínico-patológicos e do diagnóstico pela soroneutralização em camundongo, do botulismo em bovinos no Brasil, através do acompanhamento de surtos no período de 1989 a 2000. As condições do manejo zootécnico e sanitário, relacionadas com a ocorrência da doença, foram avaliadas em 127 propriedades rurais localizadas em 74 municípios de nove estados brasileiros, em casuística amostrada de acordo com a suspeita clínica e epidemiológica inicial de botulismo.
O exame clínico dos animais acometidos constou da avaliação das funções vitais, exame neurológico e registro da evolução clínica.

Figura: Botulismo em vaca nelore (doença da vaca caída); dificuldade na locomoção


Animais com suspeita clínica foram necropsiados para a observação da presença de alterações macroscópicas e colheita de amostras de soro sangüíneo, fígado e líqüidos ruminal e intestinal para a tentativa de evidenciação de toxina botulínica pela soroneutralização em camundongo.

A determinação da sensibilidade epidemiológica da soroneutralização foi realizada utilizando-se dos materiais colhidos de animais necropsiados que manifestaram sinais clínicos compatíveis com botulismo, considerados como "verdadeiramente" positivos para a intoxicação. Nas amostras de alimentos foi verificada ainda a presença de Clostridium botulinum. Em 95 surtos a origem da intoxicação foi atribuída à osteofagia, em sete à utilização da cama de frango, em cinco à silagem e em 20 à alimentação dos animais com milho. De 79.080 animais sob risco nas propriedades ou confinamentos, 7.128 foram acometidos, 126 sobreviveram e 7.002 morreram devido à intoxicação. Os coeficientes de morbidade, mortalidade e letalidade foram de 9,19%, 9,12% e 99,22%, respectivamente, nos surtos associados à osteofagia e 31,33%, 29,64% e 94,59% nos associados à utilização da cama de frango. Quando a silagem esteve envolvida os coeficientes foram de 6,81%, 6,73% e 98,82%, enquanto que para o milho foram de 29,34%, 24,83% e 84,63%. Os 95 surtos associados à osteofagia, ocorreram em rebanhos de corte (90,53%) e leite (9,47%), em animais criados extensivamente em pastagem predominante de Brachiaria spp.

As condições do manejo zootécnico e sanitário revelaram falhas na suplementação mineral em 89,48% das propriedades, na eliminação de carcaças de animais mortos (93,69%) e na execução incorreta ou ausência de vacinação contra botulismo (95,79%). A proporção de surtos ocorridos entre os meses de outubro a maio foi significativamente maior que dos surtos registrados nos meses de junho a setembro.

As categorias animais envolvidas foram de fêmeas adultas (81,06%), machos em recria e engorda (14,67%) e fêmeas jovens (4,27%), e a duração dos surtos foi, na maioria das vezes, de até 10 semanas. Nos 32 surtos associados à alimentação ocorreram problemas de má conservação do alimento, com putrefação e presença de esporos de Clostridium botulinum tipos C e D. A freqüência dos sinais clínicos sugestivos de botulismo, com envolvimento da musculatura da locomoção, mastigação e deglutição, dificuldade respiratória, estado mental aparentemente normal e diminuição do tônus da musculatura da cauda e língua, foram avaliados em 538 animais.

O animais apresentaram evolução clínica superaguda (12,27%), aguda (42,94%), subaguda (30,67%) e crônica (14,12%), não ocorrendo associação entre a origem da intoxicação e a evolução clínica. Os achados de necrópsia avaliados em 327 animais revelaram a ocorrência de petéquias no endocárdio de 40 animais (3,06%), petéquias na serosa intestinal em 25 (7,65%) e congestão intestinal em 38 (11,62%). Na soroneutralização em camundongo, baseada nos 327 animais examinados, foi possível detectar toxina botulínica no soro sangüíneo de 12 animais (3,67%), nas amostras de fígado de 69 (21,10%), no líqüido ruminal de 65 (19,88%) e no líqüído intestinal de 61 (18,65%). Considerando os resultados nos quatro espécimes examinados para cada bovino, 142 animais foram positivos em pelo menos um dos materiais. A sensibilidade epidemiológica da soroneutralização em camundongo foi de 43,4%. Não foi encontrada associação significativa entre a origem da intoxicação e o resultado da soroneutralização; no entanto, houve associação entre a evolução clínica e o teste em camundongo, com maior positividade nos animais com intoxicação superaguda e aguda.

As toxinas botulínicas tipos C e D foram responsáveis pelos surtos associados à osteofagia, enquanto que o tipo D predominou nos surtos associados à alimentação, com associação significativa entre a origem da intoxicação e os tipos de toxina. Os resultados indicam que o botulismo é uma importante causa de mortalidade bovina no Brasil e que o diagnóstico da enfermidade, na maioria das vezes, deve ser baseado no quadro clínico e nas características epidemiológicas.

Fonte: Epidemiologia, quadro clínico e diagnóstico pela soroneutralização em camundongongo do botulismo em bovinos no Brasil, 1989-2000. Araçatuba, SP, 2001. 152 f. Tese (Livre-docência) - Universidade Estadual Paulista, Curso de Medicina Veterinária.

Um comentário:

Joelsa disse...

Sou estudante do curso de Agropecuária e o Biotec esta me ajudando muito em pesquisas nessa fase da minha vida.obrigado